14 de janeiro de 2014

Conto: Desventuras de uma sexta qualquer

Poderia ter sido um dia como qualquer outro na vida deles. E tinha tudo para ser.
Mas não foi.
Era um dia comum na Grande São Paulo. O sol já fazia sua rota diária rumo ao Oeste – sinal de que o dia já se esvaía – e ainda assim, a correria nas ruas continuava. Um mar de pessoas passava para lá e para cá, atropelando umas às outras. A maioria delas saía de seus entediantes empregos e iam em direção aos barzinhos da cidade. Afinal, era sexta-feira!
Não é de espantar que Gabriela tenha sido uma dessas pessoas.  Andou até o barzinho mais próximo, entrou e jogou sua gigantesca bolsa sobre a primeira mesa que viu. Depois de um dia de trabalho mais que infrutífero, tudo o que queria era relaxar. E, é claro, não conseguiria fazer isso em casa, já que, a essa hora, suas colegas de apartamento provavelmente estariam fazendo uma farra colossal (como acontecia todas as sextas-feiras).
Gabriela só conseguia pensar em seu infeliz emprego que não lhe oferecia futuro nenhum e em como havia sido um erro ter vindo morar na capital. Talvez fosse muito mais feliz se houvesse permanecido em casa, no interior, ajudando a mãe a costurar para as madames da região. Mas não, ela tinha um sonho. Iria para a capital e conseguiria um bom emprego por lá. Cresceria dentro de uma grande empresa e, quem sabe, até conseguiria trazer sua família para morar consigo. Não era pedir demais, era? Porém, recordou-se Gabriela, a vida nem sempre nos dá o que desejamos.
Foi perdida em seus devaneios que ela quase não ouviu quando o garçom perguntou-lhe – pela segunda vez – o que ela gostaria de beber. O que mais lhe agradaria naquele momento seria beber um bom vinho e esquecer-se de todos os seus problemas. Mas ela não era muito adepta de bebidas alcoólicas. Sempre lhe davam uma infeliz de uma dor de cabeça! Assim, foi muito a contragosto que respondeu ao garçom:
“Uma Coca Zero, por favor.”
Já havia parado de seguir à risca sua dieta há muito tempo, mas pedir uma Coca Zero a fazia sentir-se bem consigo mesma, de modo que essa era sua bebida de todas as sextas.
O garçom já havia voltado com seu pedido quando Vitor entrou. Ele vestia um terno azul com o paletó levemente amassado. Sua camisa branca conseguia a grande façanha de ainda permanecer branca mesmo após um intenso dia de trabalho. A gravata já não era tão civilizada assim; estava frouxa sob a gola, e sairia ao mais simples puxão.
Entrou com uma pressa exacerbada e sentou-se na última mesa do estabelecimento.
Gabriela nem ao menos notou a chegada de Vitor, tão absorta estava em seus pensamentos. E ainda que tivesse notado, que diferença faria? Ele seria apenas mais um cara com o paletó amassado, que não ajudaria nem prejudicaria em nada sua vida.
Pediu uma mini-pizza e mergulhou ainda mais fundo em sua mente conturbada.
Do outro lado do estabelecimento, era a vez de Vitor pensar. Apesar de ter apenas vinte e três anos, já era dono de um importante cargo em uma grande empresa e de um salário no mínimo agradável. Mas não era o trabalho em si que o preocupava. Fazia duas semanas desde que descobriu que seu grande amigo de infância, Pablo, andava tramando contra ele dentro da empresa. Apenas um funcionário seria promovido, e tanto Vitor como Pablo eram favoritos ao cargo. Quando na vida Vitor imaginaria que seu grande amigo entraria em sua sala e fraudaria os arquivos de seu computador? E tudo por causa de um maldito cargo!
Vitor foi o promovido e, descoberta a fraude, Pablo perdeu o emprego. Mas isso não fez com que Vitor se alegrasse. Ao contrário! Daria toda a sua evolução profissional em troca de não ter de passar por essa revoltante experiência na vida. Desde então ele tem se recusado a acreditar nas pessoas ou mesmo a conhecer novas. Não estava preparado para tal choque.
Pediu um copo de chope e, aproveitando a espera, fez uma tentativa de espantar o pessimismo simulando uma partida de xadrez com o saleiro e o pimenteiro depositados sobre a mesa.
Enquanto isso, Gabriela resolvera examinar as pessoas presentes no local. Sem nada mais interessante com que se ocupar, até que era um jogo divertido. Já examinava a terceira pessoa: uma mulher, que aparentava seus quarenta anos. Transpirava elegância e autoconfiança, e Gabriela perguntou-se porque não poderia ser como ela.
Não perdeu tempo com a mulher e pôs-se rapidamente a procurar outro rosto para análise. Seus olhos chocaram-se contra um rosto bem mais agradável. Bem bonito, para dizer a verdade. Cabelos negros, cor de piche, que lhe caíam teimosamente sobre a testa. Olhos cor de avelã, que pareciam perdidos. Uma pele morena clara, aveludada, como ela jamais havia visto em nenhum outro homem. Embora seus olhos aparentassem confusão, seu corpo exprimia confiança, segurança. Mas não foi a beleza do tal homem que chamou sua atenção, e sim com o que o mesmo se ocupava: suas mãos mexiam-se rapidamente, de lá para cá, movendo os porta-condimentos como peças de um jogo improvisado.
            Gabriela analisava aquele movimento com a mais nítida atenção, como se sua vida dependesse disso. Ainda assim, nada conseguia entender. Passou a analisar a expressão do rapaz, e percebeu que alguma coisa ali a chamava à atenção. Não sabia se eram as profundas covinhas que suas bochechas formavam quando ele comprimia a boca para o lado, em reprovação ou dúvida, ou se era o modo como sua testa se comprimia ao simples toque daquele cabelo-cor-de-piche, ao qual ele afastava instantaneamente com os dedos. Quanto mais o olhava, mais se sentia tentada a olhar. Era como um vício – um vício estranho e irreconhecível.
            Vitor, envolvido em seu jogo improvisado, quase não percebeu os olhos que pesavam sobre si.
Quase.
            Subitamente movendo o olhar para cima, para olhar o relógio na parede do outro lado, deparou-se com um par de especuladores olhos verdes voltados para si. Viu quando a dona dos olhos remexeu-se na cadeira após perceber que ele também a mirava. Contemplou aquele gesto com uma grande amabilidade, como se aquela visão afagasse sua cabeça. Ela tinha em sua cabeça uma fita, que tentava prender os cabelos semelhantes a fios de cobre, sem muito sucesso. Alguns finos e rebeldes fios ousavam pular fora da fita, como se desejassem cair sobre seu pescoço cor de porcelana. E não era uma porcelana qualquer, mas sim uma porcelana trabalhada, coberta de sardas que só a embelezavam.
            Gabriela remexia-se cada vez mais em seu assento, envergonhada pelo rubor que subia até seu rosto, como se ela voltasse aos seus quinze anos de idade. Não era sua intenção que os olhos-cor-de-avelã se voltassem para si. Não. Aliás, não era sua intenção contemplar aquela pessoa com tamanho interesse, apenas aconteceu, e ela foi como um imã atraído por uma superfície metálica.
            Vitor admirava, ininterruptamente, aquele ser que parecia não caber naquele quadro. Ela não pertencia àquele lugar. Ficou imaginando o porquê de ela estar ali – e ainda sozinha! – e que talvez ele pudesse estar lá com ela. Fantasiou como seria sua vida se a houvesse conhecido, de algum modo, em algum lugar, e estivesse agora lá ao lado dela, pondo os eriçados fios de cobre de volta à fita. Percebeu a bolsa gigantesca jogada sobre a mesa contrastando com seu pequeno porte, e o fato de ela estar bebendo apenas uma Coca Zero, enquanto todos no local bebiam algo de teor alcoólico. E achou graça naquilo. Achou tudo altamente cômico. E não queria rir dela. Queria rir com ela. Queria comentar tudo aquilo com a dona dos olhos especuladores e queria que ela achasse graça, e soltasse um risinho abafado, e de repente, os dois estariam juntos às gargalhadas. Não queria duvidar mais das pessoas, queria ter a chance de não duvidar dela. Como seria bom, pensou, se tudo pudesse ser assim.
            Ela fazia o que podia para afastar seus olhos-imã daquele atrativo metal. No entanto, mesmo quando conseguia, continuava a pensar nele. Pensou que talvez sua vinda à capital não fosse tão mal sucedida se o houvesse conhecido. Talvez eles pudessem ter trabalhado juntos, e ela poderia admirar diariamente aquelas covinhas, não por causa de reprovação ou dúvida, e sim como consequência de um grande sorriso que ele a daria. Sonhou com como deveria ser o tom de sua voz ou como ele deveria agir no dia a dia. Pensou em como ele reagiria se ela fosse até sua mesa agora e o convidasse para sentar-se com ela e dividir uma pizza de verdade. E gostaria de ter a chance de saber tudo isso. Mas não teria, simplesmente porque esse tipo de conto de fadas não acontecia com ela.
            Sonhos não movem a vida, pensou Gabriela, ações sim. E, sabendo que não poderia ter nenhuma outra atitude, pediu a conta e preparou-se para sair.
            Vitor tinha um compromisso marcado cedo no dia seguinte e, apesar de estar absorto na dona dos fios de cobre, pagou a conta, se forçou a esquecer de seus devaneios, e levantou-se. Qual não foi a sua surpresa ao ver a bela donzela levantar-se ao mesmo tempo que ele! Perdido entre voltar e sentar-se novamente, ou continuar sua rota em direção à porta, conseguiu escolher a segunda opção.
            Mal ouvia seus passos. Quase esbarrou com a moça na saída, mas voltou dois passos e segurou a porta para que ela passasse. Ela retribuiu seu gentil gesto com um sorriso acalentador que, mal sabia ele, encobria um incomodozinho em seu pequenino estômago.
            Ao pôr os pés para fora do barzinho, ela rumou para a direita e ele para a esquerda, os dois ainda intrigados com os olhares e as hipóteses formadas dentro daquele pequeno local.
            Um passo e o corpo dele suplicava para que ele regressasse. Dois passos e o estômago dela comprimia cada vez mais. Três passos e uma vozinha em sua mente o persuadia: “Volte! Volte! Volte!” Quatro passos e ela já arrependia-se das ações não tomadas. No quinto passo ele parou.
“AAhhhh! O que eu tenho a perder?”
Exclamou a quem quisesse ouvir.
Girou sobre os calcanhares e correu atrás da moça que ele nem ao menos sabia o nome. Dez passos os separavam, e mais pareciam dez quilômetros.
Ela sentiu um toque em seu ombro direito e um arrepio percorreu sua espinha. Virou e deparou-se com os mesmos olhos-cor-de-avelã que vira dentro do barzinho, porém, menos preocupados. Desta vez, exibiam determinação.
“Oi”
Ele disse.
“Oi”
Ela respondeu.
O que nenhum dos dois sabia, era que essas duas palavrinhas carregavam mais emoções que longas conversar que já haviam tido.
Ele disse que havia achado interessante “o caso da Coca Zero” e ela lhe perguntou sobre o estranho jogo com os condimentos. Ele a explicou sobre o xadrez e eles trocaram nomes. Ela achou Vitor um nome tão imponente, e ele achou Gabriela um nome tão dócil. Trocaram algumas palavras sobre seus empregos e sobre a caótica sexta-feira. E antes que percebessem, já trocavam sorrisos e risos.
Ele refletiu, e então a convidou:
“O que acha de voltarmos lá para dentro?”
Ela achou a ideia um tanto bizarra, no entanto aceitou. Não era sempre que esse tipo de coisa acontecia. E, além disso, mais um copo de refrigerante não a mataria.
Ele achou que era o cara mais sortudo do mundo, e ela achou que “sim, coisas boas acontecem nas cidades grandes!”.
O que nenhum dos dois achava, era que uma desventura qualquer, de uma sexta-feira tão normal, pudesse dar nisso. E quem sabe não daria em amor? Talvez eles possam responder isso algum dia.

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Conto escrito por Dayenne Vieira



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