Poderia
ter sido um dia como qualquer outro na vida deles. E tinha tudo para ser.
Mas
não foi.
Era
um dia comum na Grande São Paulo. O sol já fazia sua rota diária rumo ao Oeste
– sinal de que o dia já se esvaía – e ainda assim, a correria nas ruas
continuava. Um mar de pessoas passava para lá e para cá, atropelando umas às
outras. A maioria delas saía de seus entediantes empregos e iam em direção aos
barzinhos da cidade. Afinal, era sexta-feira!
Não é
de espantar que Gabriela tenha sido uma dessas pessoas. Andou até o barzinho mais próximo, entrou e
jogou sua gigantesca bolsa sobre a primeira mesa que viu. Depois de um dia de
trabalho mais que infrutífero, tudo o que queria era relaxar. E, é claro, não
conseguiria fazer isso em casa, já que, a essa hora, suas colegas de
apartamento provavelmente estariam fazendo uma farra colossal (como acontecia
todas as sextas-feiras).
Gabriela
só conseguia pensar em seu infeliz emprego que não lhe oferecia futuro nenhum e
em como havia sido um erro ter vindo morar na capital. Talvez fosse muito mais
feliz se houvesse permanecido em casa, no interior, ajudando a mãe a costurar
para as madames da região. Mas não, ela tinha um sonho. Iria para a capital e
conseguiria um bom emprego por lá. Cresceria dentro de uma grande empresa e,
quem sabe, até conseguiria trazer sua família para morar consigo. Não era pedir
demais, era? Porém, recordou-se Gabriela, a vida nem sempre nos dá o que
desejamos.
Foi
perdida em seus devaneios que ela quase não ouviu quando o garçom perguntou-lhe
– pela segunda vez – o que ela gostaria de beber. O que mais lhe agradaria
naquele momento seria beber um bom vinho e esquecer-se de todos os seus
problemas. Mas ela não era muito adepta de bebidas alcoólicas. Sempre lhe davam
uma infeliz de uma dor de cabeça! Assim, foi muito a contragosto que respondeu
ao garçom:
“Uma Coca Zero, por favor.”
Já
havia parado de seguir à risca sua dieta há muito tempo, mas pedir uma Coca Zero a fazia sentir-se bem consigo
mesma, de modo que essa era sua bebida de todas as sextas.
O
garçom já havia voltado com seu pedido quando Vitor entrou. Ele vestia um terno
azul com o paletó levemente amassado. Sua camisa branca conseguia a grande
façanha de ainda permanecer branca mesmo após um intenso dia de trabalho. A
gravata já não era tão civilizada assim; estava frouxa sob a gola, e sairia ao
mais simples puxão.
Entrou
com uma pressa exacerbada e sentou-se na última mesa do estabelecimento.
Gabriela
nem ao menos notou a chegada de Vitor, tão absorta estava em seus pensamentos.
E ainda que tivesse notado, que diferença faria? Ele seria apenas mais um cara
com o paletó amassado, que não ajudaria nem prejudicaria em nada sua vida.
Pediu
uma mini-pizza e mergulhou ainda mais fundo em sua mente conturbada.
Do
outro lado do estabelecimento, era a vez de Vitor pensar. Apesar de ter apenas
vinte e três anos, já era dono de um importante cargo em uma grande empresa e
de um salário no mínimo agradável. Mas não era o trabalho em si que o
preocupava. Fazia duas semanas desde que descobriu que seu grande amigo de
infância, Pablo, andava tramando contra ele dentro da empresa. Apenas um
funcionário seria promovido, e tanto Vitor como Pablo eram favoritos ao cargo.
Quando na vida Vitor imaginaria que seu grande amigo entraria em sua sala e
fraudaria os arquivos de seu computador? E tudo por causa de um maldito cargo!
Vitor
foi o promovido e, descoberta a fraude, Pablo perdeu o emprego. Mas isso não
fez com que Vitor se alegrasse. Ao contrário! Daria toda a sua evolução
profissional em troca de não ter de passar por essa revoltante experiência na
vida. Desde então ele tem se recusado a acreditar nas pessoas ou mesmo a
conhecer novas. Não estava preparado para tal choque.
Pediu
um copo de chope e, aproveitando a espera, fez uma tentativa de espantar o
pessimismo simulando uma partida de xadrez com o saleiro e o pimenteiro
depositados sobre a mesa.
Enquanto
isso, Gabriela resolvera examinar as pessoas presentes no local. Sem nada mais
interessante com que se ocupar, até que era um jogo divertido. Já examinava a
terceira pessoa: uma mulher, que aparentava seus quarenta anos. Transpirava
elegância e autoconfiança, e Gabriela perguntou-se porque não poderia ser como
ela.
Não perdeu tempo com a mulher e
pôs-se rapidamente a procurar outro rosto para análise. Seus olhos chocaram-se
contra um rosto bem mais agradável. Bem bonito, para dizer a verdade. Cabelos
negros, cor de piche, que lhe caíam teimosamente sobre a testa. Olhos cor de avelã,
que pareciam perdidos. Uma pele morena clara, aveludada, como ela jamais havia
visto em nenhum outro homem. Embora seus olhos aparentassem confusão, seu corpo
exprimia confiança, segurança. Mas não foi a beleza do tal homem que chamou sua
atenção, e sim com o que o mesmo se ocupava: suas mãos mexiam-se rapidamente,
de lá para cá, movendo os porta-condimentos como peças de um jogo improvisado.
Gabriela analisava aquele movimento com a mais nítida
atenção, como se sua vida dependesse disso. Ainda assim, nada conseguia
entender. Passou a analisar a expressão do rapaz, e percebeu que alguma coisa ali
a chamava à atenção. Não sabia se eram as profundas covinhas que suas bochechas
formavam quando ele comprimia a boca para o lado, em reprovação ou dúvida, ou
se era o modo como sua testa se comprimia ao simples toque daquele
cabelo-cor-de-piche, ao qual ele afastava instantaneamente com os dedos. Quanto
mais o olhava, mais se sentia tentada a olhar. Era como um vício – um vício
estranho e irreconhecível.
Vitor, envolvido em seu jogo improvisado, quase não
percebeu os olhos que pesavam sobre si.
Quase.
Subitamente movendo o olhar para cima, para olhar o
relógio na parede do outro lado, deparou-se com um par de especuladores olhos
verdes voltados para si. Viu quando a dona dos olhos remexeu-se na cadeira após
perceber que ele também a mirava. Contemplou aquele gesto com uma grande
amabilidade, como se aquela visão afagasse sua cabeça. Ela tinha em sua cabeça
uma fita, que tentava prender os cabelos semelhantes a fios de cobre, sem muito
sucesso. Alguns finos e rebeldes fios ousavam pular fora da fita, como se
desejassem cair sobre seu pescoço cor de porcelana. E não era uma porcelana
qualquer, mas sim uma porcelana trabalhada, coberta de sardas que só a
embelezavam.
Gabriela remexia-se cada vez mais em seu assento,
envergonhada pelo rubor que subia até seu rosto, como se ela voltasse aos seus
quinze anos de idade. Não era sua intenção que os olhos-cor-de-avelã se
voltassem para si. Não. Aliás, não era sua intenção contemplar aquela pessoa
com tamanho interesse, apenas aconteceu, e ela foi como um imã atraído por uma
superfície metálica.
Vitor admirava, ininterruptamente, aquele ser que parecia
não caber naquele quadro. Ela não pertencia àquele lugar. Ficou imaginando o
porquê de ela estar ali – e ainda sozinha! – e que talvez ele pudesse estar lá
com ela. Fantasiou como seria sua vida se a houvesse conhecido, de algum modo,
em algum lugar, e estivesse agora lá ao lado dela, pondo os eriçados fios de
cobre de volta à fita. Percebeu a bolsa gigantesca jogada sobre a mesa
contrastando com seu pequeno porte, e o fato de ela estar bebendo apenas uma Coca Zero, enquanto todos no local
bebiam algo de teor alcoólico. E achou graça naquilo. Achou tudo altamente
cômico. E não queria rir dela. Queria rir com
ela. Queria comentar tudo aquilo com a dona dos olhos especuladores e queria
que ela achasse graça, e soltasse um risinho abafado, e de repente, os dois
estariam juntos às gargalhadas. Não queria duvidar mais das pessoas, queria ter
a chance de não duvidar dela. Como
seria bom, pensou, se tudo pudesse ser assim.
Ela fazia o que podia para afastar seus olhos-imã daquele
atrativo metal. No entanto, mesmo quando conseguia, continuava a pensar nele.
Pensou que talvez sua vinda à capital não fosse tão mal sucedida se o houvesse
conhecido. Talvez eles pudessem ter trabalhado juntos, e ela poderia admirar
diariamente aquelas covinhas, não por causa de reprovação ou dúvida, e sim como
consequência de um grande sorriso que ele a daria. Sonhou com como deveria ser
o tom de sua voz ou como ele deveria agir no dia a dia. Pensou em como ele
reagiria se ela fosse até sua mesa agora e o convidasse para sentar-se com ela
e dividir uma pizza de verdade. E gostaria de ter a chance de saber tudo isso.
Mas não teria, simplesmente porque esse tipo de conto de fadas não acontecia
com ela.
Sonhos não movem a vida, pensou Gabriela, ações sim. E,
sabendo que não poderia ter nenhuma outra atitude, pediu a conta e preparou-se
para sair.
Vitor tinha um compromisso marcado cedo no dia seguinte
e, apesar de estar absorto na dona dos fios de cobre, pagou a conta, se forçou
a esquecer de seus devaneios, e levantou-se. Qual não foi a sua surpresa ao ver
a bela donzela levantar-se ao mesmo tempo que ele! Perdido entre voltar e
sentar-se novamente, ou continuar sua rota em direção à porta, conseguiu
escolher a segunda opção.
Mal ouvia seus passos. Quase esbarrou com a moça na
saída, mas voltou dois passos e segurou a porta para que ela passasse. Ela
retribuiu seu gentil gesto com um sorriso acalentador que, mal sabia ele,
encobria um incomodozinho em seu pequenino estômago.
Ao pôr os pés para fora do barzinho, ela rumou para a
direita e ele para a esquerda, os dois ainda intrigados com os olhares e as
hipóteses formadas dentro daquele pequeno local.
Um passo e o corpo dele suplicava para que ele
regressasse. Dois passos e o estômago dela comprimia cada vez mais. Três passos
e uma vozinha em sua mente o persuadia: “Volte! Volte! Volte!” Quatro passos e
ela já arrependia-se das ações não tomadas. No quinto passo ele parou.
“AAhhhh!
O que eu tenho a perder?”
Exclamou
a quem quisesse ouvir.
Girou
sobre os calcanhares e correu atrás da moça que ele nem ao menos sabia o nome. Dez
passos os separavam, e mais pareciam dez quilômetros.
Ela
sentiu um toque em seu ombro direito e um arrepio percorreu sua espinha. Virou
e deparou-se com os mesmos olhos-cor-de-avelã que vira dentro do barzinho,
porém, menos preocupados. Desta vez, exibiam determinação.
“Oi”
Ele
disse.
“Oi”
Ela
respondeu.
O que
nenhum dos dois sabia, era que essas duas palavrinhas carregavam mais emoções
que longas conversar que já haviam tido.
Ele
disse que havia achado interessante “o caso da Coca Zero” e ela lhe perguntou sobre o estranho jogo com os
condimentos. Ele a explicou sobre o xadrez e eles trocaram nomes. Ela achou
Vitor um nome tão imponente, e ele achou Gabriela um nome tão dócil. Trocaram
algumas palavras sobre seus empregos e sobre a caótica sexta-feira. E antes que
percebessem, já trocavam sorrisos e risos.
Ele
refletiu, e então a convidou:
“O
que acha de voltarmos lá para dentro?”
Ela
achou a ideia um tanto bizarra, no entanto aceitou. Não era sempre que esse
tipo de coisa acontecia. E, além disso, mais um copo de refrigerante não a
mataria.
Ele
achou que era o cara mais sortudo do mundo, e ela achou que “sim, coisas boas
acontecem nas cidades grandes!”.
O que
nenhum dos dois achava, era que uma desventura qualquer, de uma sexta-feira tão
normal, pudesse dar nisso. E quem sabe não daria em amor? Talvez eles possam
responder isso algum dia.
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