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10 de outubro de 2014

Lágrimas

Ah, lágrimas!
Grandes aliadas
Amigas de intrigas
De noites mal dormidas
De vidas mal vividas.
Companheiras da alegria
Da boa estadia
De cada mania
Da melhor melodia.
Ah, lágrimas!
Jurava que não as amava.
É mentira,
Amo-as sim!
Achava que só num sonho ruim
Lágrimas seriam parceiras leais.
Mas descobri, vocês são reais.
Ah, lágrimas!
Como descobrir o que é errado
Sem vocês ao lado?
Depois, é claro, é só sorrir!
As lágrimas ainda vão vir,
Mas por um caminho diferente.
É no coração da gente
Que elas transbordarão.
De paixão, confusão,
Ou seja lá o que for!
Ah, lágrimas!
Como poderia perceber
Que é necessário sofrer
Pra entender a vida?
Minhas queridas,
Companheiras do bom e do mau.
Cada uma é tão fatal
Mas tão conciliadora.
Ah, lágrimas!
Um dia só as verei em meio à alegria.
Vou sorrir, sorrir, sorrir!
E aí vocês vão vir.
Mas não vou me importar.
Não é que aprendi?
A vocês irei amar!

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[Lágrimas; Dayenne Vieira]

18 de setembro de 2014

Feriado

Sempre senti que precisava ser parte de algo. De uma família. De um grupo. De qualquer coisa. E, um dia, eu realmente fui. Infelizmente esse sentimento fugiu de mim e eu não possuía forças para recuperá-lo.
            Até agora.
            Hoje é feriado e Angelina deu a ideia de fazermos algo juntos, para que a nossa “família” possa se reunir fora do local de trabalho e se conhecer melhor. Estive pensando em não ir, em inventar alguma dor de cabeça imaginária ou qualquer tipo de indisposição que servisse de desculpa para ficar em casa. No entanto, só de lembrar daqueles rostos animados pensando na possibilidade de estarmos juntos, meu ânimo se renova. Eu quero conhecer melhor a todos. As pessoas são tão complexas que, sem esforço, nunca as entenderemos. Aliás, nunca as entenderemos por completo, realmente. Mas se eu pudesse saber ao menos trinta por cento do que se passa na mente de algumas delas, eu já me sentiria bem feliz. Além disso, depois da conversa que tive com Mary há algumas semanas, eu me sinto renovada, pronta para a próxima grande emoção.
            Dean disse que passaria aqui em casa para irmos juntos até o Joe’s, onde vamos encontrar o resto do pessoal. São sete horas e dezessete minutos. Dean vai passar aqui às sete e meia, então ainda tenho algum tempo para terminar de me arrumar. Tentei me arrumar um pouco melhor hoje. Desembaracei o cabelo e o deixei solto. Shay me emprestou um vestidinho verde (ela sabe como amo verde), desses que as meninas costumam usar no verão. Ele é de alcinhas com pequenos botões perolados que vão até a altura cintura, onde ele deixa de ser justo e passa a abrir, fazendo uma saia esvoaçante e um pouco rodada que vai até os joelhos.
            Meu celular toca e vejo que é Shay.
            Mal atendo a ligação e aquela vozinha persistente começa:
            – Ayla! Já saiu de casa? E o vestido? Você pôs o vestido, não é?
            – Ei Shay, se acalme. ­– eu rio. – Já coloquei o vestido.
            – Sem gracinhas, dona Ayla. Usou o brilho labial rosa?
Eu pego rapidamente o vidrinho de brilho em cima da cama e passo pelos lábios.
            – Usei.
– E a sandália? Você comprou mesmo a sandália, certo? Juro que te mato se você estiver com um par de All Star nos pés.
            – Então Shay...
Eu tento me controlar, mas estou rindo cada vez mais. Eu realmente tentei comprar a tal sandália, mas quando cheguei em frente à loja de sapatos dei de cara com um All Star slim, branco com detalhes dourados. É claro que desisti na mesma hora de comprar a sandália.
– Ayla Hazkel! Eu não acredito nisso! Eu sabia que deveria ter ido com você, mas você insistiu em dizer que não, que você saberia comprar uma sandália sozinha. Pelo visto, você não sabe!
Shay é sempre tão calma e dócil... Menos quando o assunto é roupas, sapatos ou qualquer coisa relacionada à moda.
Eu não parava de rir.
– Shay, querida, se acalme. Eu não vou desfilar no tapete do Oscar, só vou dar um passeio com o pessoal do trabalho. Provavelmente vai estar todo mundo de calça jeans e camiseta, você vai ver.
Shay continua a me dar bronca pelo telefone por um bom tempo, até que a campainha toca e eu me despeço, ainda em meio a risadas. Vou até a minha cômoda, abro a caixinha de madeira que está sobre ela e pego o colar de pedra que Luke me deu. Ele é um de meus bens mais preciosos, então quase sempre o deixo guardado, mas hoje é um dia especial então resolvo usá-lo. Pego minha bolsa – bege, à tiracolo, que Shay me deu – e corro para a porta.
Assim que abro a porta, vejo Dean de costas agachado, encostado no batente do portãozinho de madeira. Ele parece distraído. Vou andando até ele pelo caminho do jardim. Toco sua cabeça e ele levanta, quase em um pulo, e olha para mim.
– Te assustei? Ah, eu não te disse que quando vier aqui pode entrar e bater na porta? 
Ele tem em seu rosto um olhar examinador, e um sorriso esperto, como o de um menino arteiro.
– Ei! Dean! – estalo os dedos perto de seu rosto. – Acorda. O que foi?
Ele ri.
– Desculpa. Eu esqueci que você tinha dito pra entrar.
– Ah. – eu digo, confusa. Nós começamos a caminhar.
– O que aconteceu? Você estava tão falante há um minuto.
– O que aconteceu? Bem, quando saí pela porta de casa, o senhor estava encostado no portão, parecendo estar em algum outro mundo. Daí, quando eu chego perto, vossa senhoria praticamente pula de susto e fica me olhando, estarrecido, com uma expressão... Nem sei como definir a expressão do senhor naquele momento. Enfim, foi isso que aconteceu.
Ele me olha, provavelmente para confirmar se estou realmente chateada ou se estou apenas dissimulando o meu tom de voz. É claro que a última opção é a correta, e Dean percebe isso. Então, ele entra na brincadeira:
– Oh, mil perdões, senhorita. Sinto em lhe dizer que o seu servo estava realmente, como dizem os plebeus por aí, – ele pigarreia e abre duas aspas imaginárias com os dedos – “viajando”.
Eu caio na gargalhada.
– Ah, Dean! Isso é totalmente injusto! Você é sempre mais teatral que eu.
– O quê? Claro que não! Você é a atriz aqui, sabe disso. Eu não consigo fazer aquelas caretas que você faz, nem que eu tente mil vezes.
– Ah, é claro que não...
Nós continuamos rindo por alguns segundos, até que eu digo:
– Mas, falando sério agora, o que aconteceu?
– Quando eu estava encostado no portão ou quando você chegou?
– Os dois, Einstein.
Ele ri.
– Bem, quanto a estar encostado no portão, eu estava observando uma fila de formigas carregando folhas e me lamentando por ter esquecido minha câmera em casa. Acho que já te falei que sou meio aficionado por fotografia.
Ele me olha, pedindo uma confirmação, e eu aceno um sim com a cabeça. Essa menção à fotografia faz com que eu me lembre de Luke.
– Agora, quando você chegou, obviamente eu me assustei, porque eu estava bastante distraído.
– E quanto à sua expressão estarrecida?
– Ah, isso... – ele me olha, olha para o céu, e volta a olhar para mim. – Eu fiquei um pouco chocado com a sua aparência. Você sempre está muito bonita, mas hoje você está mais que o normal. Está diferente.
– Ah. – por algum motivo, eu não sei bem o que dizer. – Hum, deve ser o vestido. Eu não costumo usar vestidos, Shay me emprestou esse. Na verdade, eu usava quando era mais nova, mas agora só tenho praticamente jeans e camisetas no meu guarda-roupa.
– Ficou muito bom. – ele me olha novamente, analisa alguma coisa em meu rosto, mas não consigo perceber o que é. Ele volta seu olhar para o meu pescoço. – Ah, esse é o colar que você falou?
 – É sim.
– Muito bonito. Mas acho que ele está ao contrário, moça. – ele ri.
– Está? – eu digo, passando a mão sobre o colar. – Foi a correria na hora de me arrumar.
Tiro o colar.
– Posso ver? – Dean pergunta.
Eu entrego o colar em suas mãos. Ele abre a pequena pedra, olha as fotos, e diz:
– Você parece bastante com os dois.
– É. – sorrio.
Estamos a poucos metros do restaurante. Dean para e eu, instintivamente, faço o mesmo. Ele toca meu ombro para que eu vire de costas, e é o que faço. Sua mão passa por meu cabelo e o joga suavemente para o lado, sobre o ombro oposto ao que ele tocou. Sinto o metal gelado do colar em contato com meu colo, contrastando com o toque da mão quente de Dean em minha nuca, prendendo o fecho da correntinha. Ele carrega meu cabelo com as mãos para o lugar onde estavam originalmente. Eu me viro novamente e agradeço.
Continuamos andando, e encontramos o resto do pessoal em frente ao Joe’s.

Meu coração continua batendo como marteladas em meu peito.

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14 de setembro de 2014

Ansiedade

E eu que dizia
"Esqueça o passado"
Não conseguia esquecer.
Estava aqui guardado,
Parecia que nunca iria morrer.
E eu que dizia
"Foque o presente"
Me fiz tão ausente.
Esqueci que presente é dádiva
Que se usa de uma vez
(Mas com precaução).
E eu que dizia
"Aguarde o futuro"
Ansiei o mesmo com toda a força.
Esqueci que sou apenas moça
E não heroína de romace famoso.
Falei tanto e nada fiz.
Assim, de que adianta?
Mas a ansiedade é tanta
Que vira rocha e esmaga o coração.
Nenhuma canção traduz
Nenhum feixe é de luz
Nenhuma descrição faz juz.
Às vezes a gente é que complica
Que guarda o que não necessita ser guardado
Não fala o que deveria ser falado
Não preza o que deveria ser prezado.
E aí qualquer pontinha de dúvida vira dívida.
Com a vida
Cosigo mesmo
Com que se ama.
Qualquer pocinha vira lama
Qualquer gota é tempestade
Qualquer desgosto e já não ama
Qualquer zunido é alarde.
Mas sempre tem alguem
Que te busca
Que te puxa
Que te bate
Até que você acorde.
Saiba, nós temos sorte.
Porque há sempre alguém mais forte
A te esperar e te ajudar
A não ansiar tanto a vida.
Obrigada! Obrigada!
Quando se sente amada
Você aprende.
Qualquer ferro é espada
Nenhuma palavra é errada,
Nenhuma saída é arriscada.
Entradas e saídas surgirão
Estradas de asfalto e estradas de chão.
E só você vai poder dizer por onde passar.
(E se tiver a quem amar, tudo fica melhor!)

[Ansiedade; Dayenne Vieira]

4 de julho de 2014

Abraço

Um abraço são dois corações
batendo juntos.
Tão perto,
São dois mundos
Unidos em um só ato.
Qualquer tristeza é só um fator
Diante de tanto calor,
tanta dor 
E tanto amor.
Como dois corpos diferentes
Podem de tal maneira se completar?
O mesmo palco, o mesmo ar,
Vidas diferentes, amores divergentes.
Um abraço, duas mentes.
Sementes de carinho espalhadas por aí.
São dois braços guardando um coração.
Talvez seja isso.
As muralhas da razão
Protegendo os frágeis sentimentos.
Ah, é tanto carinho!
Ninguém compõe um abraço sozinho.
Uma lição pra vida
(Adeus orgulho,
Desse lado da grade
Só impera a humildade!)
Mãos poéticas,
Que caladas falam mais que palavras mal faladas.
Quantas palavras um abraço pode dizer?
Nem precisa ver pra crer.
Um abraço diz mais do que se faz necessário ouvir pra viver.

[Abraço; Dayenne Vieira]

Bônus:

"Tanta coisa pra dizer que só um abraço diz" 
Esse trecho da música "Diante de qualquer nariz" da banda Suricato foi uma das inspirações para escrever o poema acima. Então nada mais justo que deixar o vídeo dela aqui, não? 
Espero que gostem!



16 de junho de 2014

Vida

(imagem por Dayenne Vieira)

Vida é só um apelido
Para idas e vindas.
Mesmo lutando
Algumas são lindas.
Outras nem tanto.
Algumas são um manto
De grande beleza.
Às vezes, de tristeza.
Mas foi com destreza
Que foi tecida
Essa bela obra
Que é a vida.
Fases são parte
Do caminho
Dessa bela arte.
E qual arte é completa
Se o artista não
impõe uma meta?
Pequenas metas
Quando alcançadas
Dão ao ser e à vida
Uma chance 
De andarem de mãos dadas.
Metas maiores
São como flores.
Cheias de amores,
Perfumam seu dia,
Deixam tudo em harmonia.
E quanto à felicidade?
Que a felicidade
Vire rotina.
Que a bondade
Seja o que define
A sua realidade.

("It's Just a phase. It's not forever." - John Mayer)


[Vida; Dayenne Vieira]

7 de junho de 2014

Sou tudo, sou nada

Porque não 
nunca é resposta
é em vão
esse tipo de aposta.
a vida requer respostas
concretas
discretas
orquestradas pela sanidade.
mas quem é completamente são?
só espero não viver em vão
pois a vida não termina aqui.
às vezes, só quero sumir
talvez pra me redimir
de mim mesma
das bobagens
que só eu sei que fiz.
Um dia
vou escrever a giz:
"Eu amo viver!"
e a lousa da realidade
de tão feliz vai crescer
só pra que eu escreva mais.
mas por enquanto
deixe o pranto
pois ele faz bem à culpa.
Desculpa. Desculpa.
Fui eu que errei
não foi você.
Ah, vida, 
eu só queria crescer
crescer de verdade
ainda sou metade
de um mísero ser.
e que posso fazer
se eu erro a cada passo?
cada dia é um pedaço
da cortina desse espetáculo
em que só eu atuo.
sou a mocinha,
sou a vilã,
sou tudo
e ainda assim, nada sou.
ah, mas um dia eu me vou.
ah se vou.
saio detrás dessa cortina desfiada
e vou correndo ser amada
principalmente por mim
já que é assim
que escolhi viver.

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[Sou tudo, sou nada; Dayenne Vieira]

14 de janeiro de 2014

Conto: Desventuras de uma sexta qualquer

Poderia ter sido um dia como qualquer outro na vida deles. E tinha tudo para ser.
Mas não foi.
Era um dia comum na Grande São Paulo. O sol já fazia sua rota diária rumo ao Oeste – sinal de que o dia já se esvaía – e ainda assim, a correria nas ruas continuava. Um mar de pessoas passava para lá e para cá, atropelando umas às outras. A maioria delas saía de seus entediantes empregos e iam em direção aos barzinhos da cidade. Afinal, era sexta-feira!
Não é de espantar que Gabriela tenha sido uma dessas pessoas.  Andou até o barzinho mais próximo, entrou e jogou sua gigantesca bolsa sobre a primeira mesa que viu. Depois de um dia de trabalho mais que infrutífero, tudo o que queria era relaxar. E, é claro, não conseguiria fazer isso em casa, já que, a essa hora, suas colegas de apartamento provavelmente estariam fazendo uma farra colossal (como acontecia todas as sextas-feiras).
Gabriela só conseguia pensar em seu infeliz emprego que não lhe oferecia futuro nenhum e em como havia sido um erro ter vindo morar na capital. Talvez fosse muito mais feliz se houvesse permanecido em casa, no interior, ajudando a mãe a costurar para as madames da região. Mas não, ela tinha um sonho. Iria para a capital e conseguiria um bom emprego por lá. Cresceria dentro de uma grande empresa e, quem sabe, até conseguiria trazer sua família para morar consigo. Não era pedir demais, era? Porém, recordou-se Gabriela, a vida nem sempre nos dá o que desejamos.
Foi perdida em seus devaneios que ela quase não ouviu quando o garçom perguntou-lhe – pela segunda vez – o que ela gostaria de beber. O que mais lhe agradaria naquele momento seria beber um bom vinho e esquecer-se de todos os seus problemas. Mas ela não era muito adepta de bebidas alcoólicas. Sempre lhe davam uma infeliz de uma dor de cabeça! Assim, foi muito a contragosto que respondeu ao garçom:
“Uma Coca Zero, por favor.”
Já havia parado de seguir à risca sua dieta há muito tempo, mas pedir uma Coca Zero a fazia sentir-se bem consigo mesma, de modo que essa era sua bebida de todas as sextas.
O garçom já havia voltado com seu pedido quando Vitor entrou. Ele vestia um terno azul com o paletó levemente amassado. Sua camisa branca conseguia a grande façanha de ainda permanecer branca mesmo após um intenso dia de trabalho. A gravata já não era tão civilizada assim; estava frouxa sob a gola, e sairia ao mais simples puxão.
Entrou com uma pressa exacerbada e sentou-se na última mesa do estabelecimento.
Gabriela nem ao menos notou a chegada de Vitor, tão absorta estava em seus pensamentos. E ainda que tivesse notado, que diferença faria? Ele seria apenas mais um cara com o paletó amassado, que não ajudaria nem prejudicaria em nada sua vida.
Pediu uma mini-pizza e mergulhou ainda mais fundo em sua mente conturbada.
Do outro lado do estabelecimento, era a vez de Vitor pensar. Apesar de ter apenas vinte e três anos, já era dono de um importante cargo em uma grande empresa e de um salário no mínimo agradável. Mas não era o trabalho em si que o preocupava. Fazia duas semanas desde que descobriu que seu grande amigo de infância, Pablo, andava tramando contra ele dentro da empresa. Apenas um funcionário seria promovido, e tanto Vitor como Pablo eram favoritos ao cargo. Quando na vida Vitor imaginaria que seu grande amigo entraria em sua sala e fraudaria os arquivos de seu computador? E tudo por causa de um maldito cargo!
Vitor foi o promovido e, descoberta a fraude, Pablo perdeu o emprego. Mas isso não fez com que Vitor se alegrasse. Ao contrário! Daria toda a sua evolução profissional em troca de não ter de passar por essa revoltante experiência na vida. Desde então ele tem se recusado a acreditar nas pessoas ou mesmo a conhecer novas. Não estava preparado para tal choque.
Pediu um copo de chope e, aproveitando a espera, fez uma tentativa de espantar o pessimismo simulando uma partida de xadrez com o saleiro e o pimenteiro depositados sobre a mesa.
Enquanto isso, Gabriela resolvera examinar as pessoas presentes no local. Sem nada mais interessante com que se ocupar, até que era um jogo divertido. Já examinava a terceira pessoa: uma mulher, que aparentava seus quarenta anos. Transpirava elegância e autoconfiança, e Gabriela perguntou-se porque não poderia ser como ela.
Não perdeu tempo com a mulher e pôs-se rapidamente a procurar outro rosto para análise. Seus olhos chocaram-se contra um rosto bem mais agradável. Bem bonito, para dizer a verdade. Cabelos negros, cor de piche, que lhe caíam teimosamente sobre a testa. Olhos cor de avelã, que pareciam perdidos. Uma pele morena clara, aveludada, como ela jamais havia visto em nenhum outro homem. Embora seus olhos aparentassem confusão, seu corpo exprimia confiança, segurança. Mas não foi a beleza do tal homem que chamou sua atenção, e sim com o que o mesmo se ocupava: suas mãos mexiam-se rapidamente, de lá para cá, movendo os porta-condimentos como peças de um jogo improvisado.
            Gabriela analisava aquele movimento com a mais nítida atenção, como se sua vida dependesse disso. Ainda assim, nada conseguia entender. Passou a analisar a expressão do rapaz, e percebeu que alguma coisa ali a chamava à atenção. Não sabia se eram as profundas covinhas que suas bochechas formavam quando ele comprimia a boca para o lado, em reprovação ou dúvida, ou se era o modo como sua testa se comprimia ao simples toque daquele cabelo-cor-de-piche, ao qual ele afastava instantaneamente com os dedos. Quanto mais o olhava, mais se sentia tentada a olhar. Era como um vício – um vício estranho e irreconhecível.
            Vitor, envolvido em seu jogo improvisado, quase não percebeu os olhos que pesavam sobre si.
Quase.
            Subitamente movendo o olhar para cima, para olhar o relógio na parede do outro lado, deparou-se com um par de especuladores olhos verdes voltados para si. Viu quando a dona dos olhos remexeu-se na cadeira após perceber que ele também a mirava. Contemplou aquele gesto com uma grande amabilidade, como se aquela visão afagasse sua cabeça. Ela tinha em sua cabeça uma fita, que tentava prender os cabelos semelhantes a fios de cobre, sem muito sucesso. Alguns finos e rebeldes fios ousavam pular fora da fita, como se desejassem cair sobre seu pescoço cor de porcelana. E não era uma porcelana qualquer, mas sim uma porcelana trabalhada, coberta de sardas que só a embelezavam.
            Gabriela remexia-se cada vez mais em seu assento, envergonhada pelo rubor que subia até seu rosto, como se ela voltasse aos seus quinze anos de idade. Não era sua intenção que os olhos-cor-de-avelã se voltassem para si. Não. Aliás, não era sua intenção contemplar aquela pessoa com tamanho interesse, apenas aconteceu, e ela foi como um imã atraído por uma superfície metálica.
            Vitor admirava, ininterruptamente, aquele ser que parecia não caber naquele quadro. Ela não pertencia àquele lugar. Ficou imaginando o porquê de ela estar ali – e ainda sozinha! – e que talvez ele pudesse estar lá com ela. Fantasiou como seria sua vida se a houvesse conhecido, de algum modo, em algum lugar, e estivesse agora lá ao lado dela, pondo os eriçados fios de cobre de volta à fita. Percebeu a bolsa gigantesca jogada sobre a mesa contrastando com seu pequeno porte, e o fato de ela estar bebendo apenas uma Coca Zero, enquanto todos no local bebiam algo de teor alcoólico. E achou graça naquilo. Achou tudo altamente cômico. E não queria rir dela. Queria rir com ela. Queria comentar tudo aquilo com a dona dos olhos especuladores e queria que ela achasse graça, e soltasse um risinho abafado, e de repente, os dois estariam juntos às gargalhadas. Não queria duvidar mais das pessoas, queria ter a chance de não duvidar dela. Como seria bom, pensou, se tudo pudesse ser assim.
            Ela fazia o que podia para afastar seus olhos-imã daquele atrativo metal. No entanto, mesmo quando conseguia, continuava a pensar nele. Pensou que talvez sua vinda à capital não fosse tão mal sucedida se o houvesse conhecido. Talvez eles pudessem ter trabalhado juntos, e ela poderia admirar diariamente aquelas covinhas, não por causa de reprovação ou dúvida, e sim como consequência de um grande sorriso que ele a daria. Sonhou com como deveria ser o tom de sua voz ou como ele deveria agir no dia a dia. Pensou em como ele reagiria se ela fosse até sua mesa agora e o convidasse para sentar-se com ela e dividir uma pizza de verdade. E gostaria de ter a chance de saber tudo isso. Mas não teria, simplesmente porque esse tipo de conto de fadas não acontecia com ela.
            Sonhos não movem a vida, pensou Gabriela, ações sim. E, sabendo que não poderia ter nenhuma outra atitude, pediu a conta e preparou-se para sair.
            Vitor tinha um compromisso marcado cedo no dia seguinte e, apesar de estar absorto na dona dos fios de cobre, pagou a conta, se forçou a esquecer de seus devaneios, e levantou-se. Qual não foi a sua surpresa ao ver a bela donzela levantar-se ao mesmo tempo que ele! Perdido entre voltar e sentar-se novamente, ou continuar sua rota em direção à porta, conseguiu escolher a segunda opção.
            Mal ouvia seus passos. Quase esbarrou com a moça na saída, mas voltou dois passos e segurou a porta para que ela passasse. Ela retribuiu seu gentil gesto com um sorriso acalentador que, mal sabia ele, encobria um incomodozinho em seu pequenino estômago.
            Ao pôr os pés para fora do barzinho, ela rumou para a direita e ele para a esquerda, os dois ainda intrigados com os olhares e as hipóteses formadas dentro daquele pequeno local.
            Um passo e o corpo dele suplicava para que ele regressasse. Dois passos e o estômago dela comprimia cada vez mais. Três passos e uma vozinha em sua mente o persuadia: “Volte! Volte! Volte!” Quatro passos e ela já arrependia-se das ações não tomadas. No quinto passo ele parou.
“AAhhhh! O que eu tenho a perder?”
Exclamou a quem quisesse ouvir.
Girou sobre os calcanhares e correu atrás da moça que ele nem ao menos sabia o nome. Dez passos os separavam, e mais pareciam dez quilômetros.
Ela sentiu um toque em seu ombro direito e um arrepio percorreu sua espinha. Virou e deparou-se com os mesmos olhos-cor-de-avelã que vira dentro do barzinho, porém, menos preocupados. Desta vez, exibiam determinação.
“Oi”
Ele disse.
“Oi”
Ela respondeu.
O que nenhum dos dois sabia, era que essas duas palavrinhas carregavam mais emoções que longas conversar que já haviam tido.
Ele disse que havia achado interessante “o caso da Coca Zero” e ela lhe perguntou sobre o estranho jogo com os condimentos. Ele a explicou sobre o xadrez e eles trocaram nomes. Ela achou Vitor um nome tão imponente, e ele achou Gabriela um nome tão dócil. Trocaram algumas palavras sobre seus empregos e sobre a caótica sexta-feira. E antes que percebessem, já trocavam sorrisos e risos.
Ele refletiu, e então a convidou:
“O que acha de voltarmos lá para dentro?”
Ela achou a ideia um tanto bizarra, no entanto aceitou. Não era sempre que esse tipo de coisa acontecia. E, além disso, mais um copo de refrigerante não a mataria.
Ele achou que era o cara mais sortudo do mundo, e ela achou que “sim, coisas boas acontecem nas cidades grandes!”.
O que nenhum dos dois achava, era que uma desventura qualquer, de uma sexta-feira tão normal, pudesse dar nisso. E quem sabe não daria em amor? Talvez eles possam responder isso algum dia.

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Conto escrito por Dayenne Vieira



25 de dezembro de 2013

Um dia normal, com medos normais

O relógio marca exatamente doze hora e quarenta e cinco minutos - conhecidos também como meio dia e quarenta e cinco ou quinze para uma.
Eu deveria estar no trabalho às treze horas. O problema é que chovia muito lá fora e digamos que... Eu não me dê muito bem com dias chuvosos. Um certo trauma de infância. Talvez eu explique isso melhor um dia.
Eu termino de almoçar. Especialidade do dia: arroz queimado, feijão, ovo frito e salada. 
Não me culpe por esse almoço "maravilhoso". Tenho vinte e dois anos, sou solteira e morei na casa de minhã mãe até os vinte e um. É fácil perceber que não sou muito boa com essa coisa de "morar sozinha". Isso é tão triste quanto é real.
Eu lavo as louças ainda restantes.
Vou até a porta, olho para o céu.
Inspira. Expira. Eu lembro a mim mesma.
Reúno toda a coragem que consigo - o que, te garanto, não é muita coisa - e ponho um pé para fora.
Em poucos segundos, estou caminhando em direção ao meu serviço.
E, é claro, a chuva não diminui.
Porque diminuir se isso só facilitaria a minha vida, não é? Isso é apenas uma pequena peça pregada por aquela coisinha linda chamada vida.
Dou passos curtos e hesitantes, até que chego ao ponto de ônibus.
A rua está totalmente quieta, e só há uma pessoa nela: eu.
Dia normal.
Medos normais.
Tudo normal.
Até que alguém vêm correndo - quase voando! - pela rua, molhada e sombria, e cai à minha frente.
Bum!
Em total desespero, corro até ele/ela em uma tentativa de ajudar, mesmo que eu não saiba o que fazer ou como fazer quando chegar lá. 
Cada gota que toca minha pele, atinge-me como uma pequena agulha.
Ainda assim, continuo.
Quando chego mais perto, percebo que se trata de um rapaz. Provavelmente mais velho que eu, embora não deva ter mais de vinte e cinco anos. Pele clara - extremamente clara -, olhos negros, boca rosada. Feições confusas, perturbadas. Ele olha para mim, e sinto como se todas as certezas do mundo fossem falsas. Seu rosto exprime uma profunda desordem.
Ele parece rir, gargalhar, embora sua boca esteja apenas levemente curvada.
O que ri, são seus olhos.
Eles soltam gargalhadas desorientadas e perdidas.
Meus olhos não desgrudam dos seus, nem por um minuto sequer. Simplesmente não consigo.
Soltem-me! Quero gritar para aquele insano par de olhos.
Porém, não o faço, pois sei que sua resposta imediata seria: Nunca!
Quando finalmente saio daquele transe, o rapaz olha para o chão, torna a olhar para mim, levanta-se e continua a correr.
Eu não paro de pensar naqueles olhos.
Um dia normal, com medos normais, se transformou nisso.
Um total pandemônio.
E uma espécie de confusão que eu nunca senti antes.

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16 de dezembro de 2013

Choque. Ódio?

Sou interrompida por uma série de soluços e não consigo completar minha frase.
Mary me observa. Apreensiva. Melancólica. Com empatia.
- Por favor, Mary. - Eu gaguejo. - Apenas me diga o porquê... Porque você mentiu para mim? Porque?...
- Hum... Algumas coisas precisam permanecer guardadas... - Ela para um segundo. Fita o chão, e volta-se novamente para mim. - É a lei da vida, Ayla.
- Não acredito que a vida seja a culpada. Ela é a culpada por muitas coisas. Pelas perdas, por exemplo. Mas ela não é culpada pelas mentiras que as pessoas contam. Não existe essa coisa de "lei da vida". Você escolhe mentir, a vida não te obrigada a isso.
Eu encaro Mary. Seu olhos lacrimejando. Seus lábios tortos, contendo um choro.
Eu não posso.
Não consigo mais.
Vou explodir a qualquer momento.
Não posso deixar isso acontecer.
Eu me viro, ignorando completamente a presença de Mary, e vou em direção à porta.
Eu gostaria de ficar. De esperar pela resposta de Mary. Esperar pelo temido porquê. Mas eu simplesmente não posso. Não posso deixar que esse choque dentro de mim transforme-se em ódio por uma pessoa que foi tão importante. Que apesar de tudo, é importante para mim.
Eu não quero isso.
Então eu simplesmente bato a porta e me vou. Todo o meu eu dissolvendo-se em lágrimas.

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12 de novembro de 2013

Pensamentos

 São pensamentos
Incontroláveis, insaciáveis,
Indiscutíveis, intermináveis.
Assombram, preocupam,
Abalam a minha sanidade.
Tento desfazê-los,
Mas de nada adianta.
Controlá-los-ei
Ou controlar-me-ão.
E quando digo-lhes
Que vão para longe de mim,
Eles dizem que não.
Não é delírio, não é imaginação,
É inconsciente e indiferente.
Quando penso que já findaram
Entro em minha memória,
E lá os encontro.
Meus pensamentos debatem-se
Como se almejassem a liberdade.
São como gotas d’água separadas do mar.
Mas porque, se a mim eles pertencem?
Não vejo solução alguma.
Tenho que deixá-los livres;
De nada adianta prende-los em um lugar
Em que para nada servirão.
Só fazem machucar, preocupar,
Ofender e matar.
Após terem me matado por dentro,
Vagueiam por aí,
Sem rumo, sem causa,
Sem ao menos saber o que irão encontrar.
Vagueando por uma estrada
Que parece não ter fim,
Conseguem ver ao longe
Um brilho, uma luz,
Brilhando, brilhando,
Como se os chamassem.
Continuam andando,
Até que lá chegam.
Percebem então o motivo
De toda aquela caminhada,
De toda aquela força,
De toda aquela insaciedade.
Encontramos, enfim,
O caminho para a felicidade!

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(Pensamentos; Dayenne Vieira)

1 de novembro de 2013

Um pedido de desculpas e uma surpresa

- Está melhor?
Dean está amistoso como sempre. Ele parece ter ignorado minha atitude indesculpável de semana passada.
- Estou sim. - Digo sorrindo. - Obrigada. E, hum... Me desculpe... Por minha atitude na semana passada. Fui muito ignorante com Mary e com você também. Eu... Eu fui uma idiota. Me desculpe, Dean.
- Tudo bem. - Ele sorri. - Acontece. Sabe, todos têm dias ruins. O importante é você não deixar se abater por eles. Certo?
- Certo. - respondo, sentindo-me muito melhor do que quando começamos a conversa.
Inesperadamente, Dean me abraça, uma de suas mãos apoiada timidamente em minhas costas, a outra em minha cabeça, conduzindo-a até seu peito. Sua cabeça está apoiada levemente sobre a minha. Eu o envolvo com os braços e as lágrimas subitamente embaçam meus olhos. Sinto meu coração apertar, e uma maravilhosa sensação de proteção toma conta de mim. Meu corpo não recebe um choque de alegria tão grande desde que meu irmão era vivo.
- Ei, não é para chorar. - Dean fala, afastando-se um pouco para olhar em meu rosto.
- Você está certo. - Digo, soltando um pequeno e abafado riso. - Vamos. Alguém precisa trabalhar por aqui.
Ele ri, e voltamos aos nossos afazeres.


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Mais um trecho do meu livro. Espero que gostem! :)
Obs: Se você não leu o prólogo do livro, pode ler clicando AQUI.

22 de outubro de 2013

Casos e acasos

Já parou para pensar que uma das centenas de pessoas que passam por você todos os dias poderia ser o grande amor de sua vida? Ou, talvez, o seu melhor amigo? Ou então, sua fonte de inspiração?

Sabe o dono daqueles pés que lhe causaram extrema irritação, fazendo barulhos irritantes no assoalho, enquanto você caminhava em um corredor - quase - vazio?  Ele pode ser o dono dos olhos mais lindos do mundo, da boca mais bem desenhada, do cabelo de cor mais estonteante e perfeita. Mas você não percebeu.

Já pensou, e assimilou, que aquela pessoa que sorriu quando você entrou naquele ônibus lotado - no calor febril de um dezembro carioca - e lhe sorriu despretensiosamente, poderia ser o melhor cozinheiro do Brasil? Ou então, o melhor escritor de romances, se publicasse seus livros que esconde no armário? Ou até, o ser mais bem sucedido, se não se deixasse levar por comentários negativos?

Sabe aquela garota que você viu ontem, ao caminhar por sua rua, mas na verdade, nem percebeu? Ela tem olhos castanhos, cabelos crespos, e um rosto de beleza indiferente. Mas ela pode ser o mundo dele. O mundo daquele cara, que passou por você, um ano atrás, em um dia de pré-feriado, numa feira lotada, e que no meio de tantos rostos, pés e corpos, você nem percebeu. Ela é o mundo dele. Mas em seu mundo, ela não é nada. Quem sabe poderia ser?

Já pensou que o cara da casa ao lado - que tem aquele jeito estranho e usa roupas que você nunca ousaria vestir - poderia ser o melhor conselheiro universal, se você o conhecesse? Você o vê todos os dias, mas nunca reparou. 

Sabe aquele cantor/ator/músico que você não gosta, xinga, e revira os olhos ao ouvir a voz soando, cantando emoções compostas em letras? Ele poderia ser seu cantor favorito, se o seu amigo não houvesse lhe apresentado aquele outro estilo musical. Ou se você não houvesse sido criado em um lugar onde esse estilo musical é repelido. Você poderia amá-lo. Se não fosse a vida que levou, as músicas que ouviu, as pessoas que amou.

Já pensou, que uma das centenas de pessoas que vêm e vão, passam e repassam por você, toda vez que vai ao centro da cidade, poderia ser o próximo Einsten, o próximo Chaplin, o próximo Jobs? 

Amores, dons, amizades, pessoas, compatibilidades. São sempre relativas. São sempre situações, casos e acasos. São o que são, mas que se não fosse por sua ação, poderiam não ser.

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(Casos e acasos; Dayenne Vieira)

15 de outubro de 2013

Labirintos Impenetráveis

O solo é seco e áspero.
Meus olhos lacrimejam com o vento incessante.
Olho ao meu redor e percebo:
Estou cercada por labirintos.
À minha direita, à minha esquerde, em frente a mim.
De todos os lados.
Fico atordoada por não poder sair daqui, fugir daqui.
Não porque os labirintos são confusos demais.
Não porque estou cansada de tanto procurar a saída.
Mas sim porque, simplesmente, não consigo entrar em um labirinto sequer.
Eu busco a entrada em todos eles. Todos.
Porém, tais entradas não existem.
Ou melhor, não posso enxergá-las.
Estou aqui.
Parada no meio do nada.
Cercada por labirintos impenetráveis.
Minha única saída é sentar e esperar que um deles revele sua entrada a mim.
Isso requer tempo e paciência.
É quase uma questão de fé.
Quer saber?
As pessoas são como labirintos impenetráveis.


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(Labirintos Impenetráveis; Dayenne Vieira)

6 de outubro de 2013

Prólogo: Uma filmadora e um sorriso

Eu estava extremamente nervosa. Esse era um fato incontestavelmente estampado em meu rosto pálido e tenso. Porém, como sempre, eu me recusava a admitir isso.
- Ei Ayla, olhe para cá! Vamos, me diga: qual a sensação de estar se formando no Ensino Fundamental?
Luke manejava aquela câmera como um profissional. Era uma filmadora simples. Preta, com uma "alcinha" ao lado para pôr a mão.
A mão dele encaixava perfeitamente ali.
Luke continuou filmando-me, apesar de eu não ter respondido a nenhuma de suas perguntas até então. Ele caminhava lentamente pelo jardim, parecendo enxergar outro mundo através da lente.
- Vamos, Ayla! Os telespectadores querem saber a resposta!
Aquilo me fez rir. Não havia um telespectador sequer à nossa volta. A menos que formigas e joaninhas possam ser consideradas telespectadores.
- Vamos, Ay! Conte-nos!
A persistência dele era incrível. E não era perturbadora. Ao contrário, ela motivava quem quer que fosse seu alvo.
- Bem... - comecei hesitante. - Hum... Eu acho que é uma boa sensação.
- Só isso?
Ele sorria como se caçoasse de mim. Porém, eu conhecia Luke o suficiente para saber que ele jamais faria isso.
- Acho que só vou experimentar outras sensações quando subir ao palco pôr as mãos em meu diploma.
- Hum, boa resposta.
Agora seu sorriso exprimia uma felicidade simples e sadia. O mesmo sorriso que vi quando dei minha primeira volta de bicicleta sem as rodinhas de apoio. O mesmo sorriso que me congratulou quando, pela primeira vez, não chorei ao arrancar um de meus dentes de leite. O mesmo - e ainda assim tão lindo! - sorriso que me acalentava sempre que o choro era minha última solução. Esse sorriso acompanhou-me pr toda minha vida, e eu não estava pronta para perdê-lo.
Ainda com o sorriso no rosto, Luke atravessou o pequeno jardim até onde eu estava sentada em um banquinho de madeira.
- Posso te filmar? - Indaguei-o.
- Claro. - E passou a filmadora ainda ligada para a minha mão.
Sorri para meu irmão e gritei:
- Ação!
- Olá, caro telespectador. - Ele começou. - Hoje é um dia muito especial para mim. A minha irmãzinha, a minha pequena e linda irmãzinha, irá se formar em poucas horas. Ela se chama Ayla, e é a garota mais inteligente e esforçada que já conheci. E eu me orgulho muito dela. - Ele fez uma pequena pausa. Daí, olhou diretamente para mim. - Parabéns, Ayla.
E sorriu.
Aquele meu velho conhecido e tão prezado sorriso.
Eu sorri de volta.
Desligue a filmadora e seguimos em direção ao meu antigo colégio.


Mal sabíamos que essa seria a última vez que uma câmera teria o prazer de captar aquele sorriso.

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(Uma filmadora e um sorriso; Dayenne Vieira)
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