Sempre senti que precisava ser parte de algo. De uma
família. De um grupo. De qualquer coisa. E, um dia, eu realmente fui.
Infelizmente esse sentimento fugiu de mim e eu não possuía forças para
recuperá-lo.
Até agora.
Hoje é
feriado e Angelina deu a ideia de fazermos algo juntos, para que a nossa
“família” possa se reunir fora do local de trabalho e se conhecer melhor.
Estive pensando em não ir, em inventar alguma dor de cabeça imaginária ou
qualquer tipo de indisposição que servisse de desculpa para ficar em casa. No
entanto, só de lembrar daqueles rostos animados pensando na possibilidade de
estarmos juntos, meu ânimo se renova. Eu quero conhecer melhor a todos. As
pessoas são tão complexas que, sem esforço, nunca as entenderemos. Aliás, nunca
as entenderemos por completo, realmente. Mas se eu pudesse saber ao menos
trinta por cento do que se passa na mente de algumas delas, eu já me sentiria
bem feliz. Além disso, depois da conversa que tive com Mary há algumas semanas,
eu me sinto renovada, pronta para a próxima grande emoção.
Dean disse
que passaria aqui em casa para irmos juntos até o Joe’s, onde vamos encontrar o
resto do pessoal. São sete horas e dezessete minutos. Dean vai passar aqui às
sete e meia, então ainda tenho algum tempo para terminar de me arrumar. Tentei
me arrumar um pouco melhor hoje. Desembaracei o cabelo e o deixei solto. Shay
me emprestou um vestidinho verde (ela sabe como amo verde), desses que as
meninas costumam usar no verão. Ele é de alcinhas com pequenos botões perolados
que vão até a altura cintura, onde ele deixa de ser justo e passa a abrir,
fazendo uma saia esvoaçante e um pouco rodada que vai até os joelhos.
Meu celular
toca e vejo que é Shay.
Mal atendo
a ligação e aquela vozinha persistente começa:
– Ayla! Já saiu de casa? E o vestido? Você
pôs o vestido, não é?
– Ei Shay, se acalme. – eu rio. – Já
coloquei o vestido.
–
Sem gracinhas, dona Ayla. Usou o brilho labial rosa?
Eu pego rapidamente o vidrinho de brilho em
cima da cama e passo pelos lábios.
–
Usei.
– E a sandália? Você comprou mesmo a
sandália, certo? Juro que te mato se você estiver com um par de All Star nos pés.
–
Então Shay...
Eu tento me controlar, mas estou rindo cada
vez mais. Eu realmente tentei comprar a tal
sandália, mas quando cheguei em frente à loja de sapatos dei de cara com um All Star slim, branco com detalhes
dourados. É claro que desisti na mesma hora de comprar a sandália.
– Ayla Hazkel! Eu não acredito nisso! Eu
sabia que deveria ter ido com você, mas você insistiu em dizer que não, que
você saberia comprar uma sandália sozinha. Pelo visto, você não sabe!
Shay é sempre tão calma e dócil... Menos
quando o assunto é roupas, sapatos ou qualquer coisa relacionada à moda.
Eu não parava de rir.
– Shay, querida, se acalme. Eu não vou desfilar
no tapete do Oscar, só vou dar um
passeio com o pessoal do trabalho. Provavelmente vai estar todo mundo de calça jeans e camiseta, você vai ver.
Shay continua a me dar bronca pelo telefone
por um bom tempo, até que a campainha toca e eu me despeço, ainda em meio a
risadas. Vou até a minha cômoda, abro a caixinha de madeira que está sobre ela
e pego o colar de pedra que Luke me deu. Ele é um de meus bens mais preciosos,
então quase sempre o deixo guardado, mas hoje é um dia especial então resolvo
usá-lo. Pego minha bolsa – bege, à tiracolo, que Shay me deu – e corro para a
porta.
Assim que abro a porta, vejo Dean de costas
agachado, encostado no batente do portãozinho de madeira. Ele parece distraído.
Vou andando até ele pelo caminho do jardim. Toco sua cabeça e ele levanta,
quase em um pulo, e olha para mim.
– Te assustei? Ah, eu não te disse que quando
vier aqui pode entrar e bater na porta?
Ele tem em seu rosto um olhar examinador, e
um sorriso esperto, como o de um menino arteiro.
– Ei! Dean! – estalo os dedos perto de seu
rosto. – Acorda. O que foi?
Ele ri.
– Desculpa. Eu esqueci que você tinha dito
pra entrar.
– Ah. – eu digo, confusa. Nós começamos a
caminhar.
– O que aconteceu? Você estava tão falante há
um minuto.
– O que aconteceu? Bem, quando saí pela porta
de casa, o senhor estava encostado no portão, parecendo estar em algum outro
mundo. Daí, quando eu chego perto, vossa senhoria praticamente pula de susto e
fica me olhando, estarrecido, com uma expressão... Nem sei como definir a expressão
do senhor naquele momento. Enfim, foi isso que aconteceu.
Ele me olha, provavelmente para confirmar se
estou realmente chateada ou se estou apenas dissimulando o meu tom de voz. É
claro que a última opção é a correta, e Dean percebe isso. Então, ele entra na
brincadeira:
– Oh, mil perdões, senhorita. Sinto em lhe
dizer que o seu servo estava realmente, como dizem os plebeus por aí, – ele
pigarreia e abre duas aspas imaginárias com os dedos – “viajando”.
Eu caio na gargalhada.
– Ah, Dean! Isso é totalmente injusto! Você é
sempre mais teatral que eu.
– O quê? Claro que não! Você é a atriz aqui,
sabe disso. Eu não consigo fazer aquelas caretas que você faz, nem que eu tente
mil vezes.
– Ah, é claro que não...
Nós continuamos rindo por alguns segundos,
até que eu digo:
– Mas, falando sério agora, o que aconteceu?
– Quando eu estava encostado no portão ou
quando você chegou?
– Os dois, Einstein.
Ele ri.
– Bem, quanto a estar encostado no portão, eu
estava observando uma fila de formigas carregando folhas e me lamentando por
ter esquecido minha câmera em casa. Acho que já te falei que sou meio
aficionado por fotografia.
Ele me olha, pedindo uma confirmação, e eu
aceno um sim com a cabeça. Essa menção à fotografia faz com que eu me lembre de
Luke.
– Agora, quando você chegou, obviamente eu me
assustei, porque eu estava bastante distraído.
– E quanto à sua expressão estarrecida?
– Ah, isso... – ele me olha, olha para o céu,
e volta a olhar para mim. – Eu fiquei um pouco chocado com a sua aparência.
Você sempre está muito bonita, mas hoje você está mais que o normal. Está
diferente.
– Ah. – por algum motivo, eu não sei bem o
que dizer. – Hum, deve ser o vestido. Eu não costumo usar vestidos, Shay me
emprestou esse. Na verdade, eu usava quando era mais nova, mas agora só tenho
praticamente jeans e camisetas no meu
guarda-roupa.
– Ficou muito bom. – ele me olha novamente,
analisa alguma coisa em meu rosto, mas não consigo perceber o que é. Ele volta
seu olhar para o meu pescoço. – Ah, esse é o colar que você falou?
– É
sim.
– Muito bonito. Mas acho que ele está ao
contrário, moça. – ele ri.
– Está? – eu digo, passando a mão sobre o
colar. – Foi a correria na hora de me arrumar.
Tiro o colar.
– Posso ver? – Dean pergunta.
Eu entrego o colar em suas mãos. Ele abre a
pequena pedra, olha as fotos, e diz:
– Você parece bastante com os dois.
– É. – sorrio.
Estamos a poucos metros do restaurante. Dean
para e eu, instintivamente, faço o mesmo. Ele toca meu ombro para que eu vire
de costas, e é o que faço. Sua mão passa por meu cabelo e o joga suavemente
para o lado, sobre o ombro oposto ao que ele tocou. Sinto o metal gelado do
colar em contato com meu colo, contrastando com o toque da mão quente de Dean
em minha nuca, prendendo o fecho da correntinha. Ele carrega meu cabelo com as
mãos para o lugar onde estavam originalmente. Eu me viro novamente e agradeço.
Continuamos andando, e encontramos o resto do
pessoal em frente ao Joe’s.
Meu coração continua batendo como marteladas
em meu peito.
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